Artigo 24 - A Narrativa da Indústria
Mitos, Eufemismos e Distrações
SÉRIE 5 — Jogo e Desporto: Integridade e Bastidores
8. Apostas no Desporto: Riscos de integridade
11. Apostar no Desporto: Entre o jogo limpo e os jogos de bastidores
Nota: Setor específico, mas crítico para opinião pública e regulação.
A indústria do jogo construiu, ao longo dos anos, um discurso altamente refinado que suaviza riscos, desloca responsabilidades e cria mitos convenientes. Este artigo desmonta as narrativas, eufemismos e distrações que moldam o debate público e explica como elas influenciam perceções, políticas e decisões regulatórias.
As palavras nunca são neutras quando moldam perceções
A indústria do jogo aprendeu, ao longo de décadas, que as palavras são ferramentas poderosas. Elas não descrevem apenas o setor: moldam a perceção pública, influenciam o debate político, enquadram a regulação e suavizam realidades desconfortáveis. O discurso oficial das empresas, das associações representativas e, por vezes, até de decisores políticos, recorre a terminologia cuidadosamente calibrada para proteger o negócio, minimizar riscos e desviar a atenção de questões estruturais que exigiriam mudanças profundas.
É aqui que nascem os mitos, os eufemismos e as distrações.
E, quando repetidos o suficiente, tornam-se senso comum.
A narrativa do risco controlado: um conforto linguístico que não corresponde à realidade
Um dos pilares da narrativa da indústria é a ideia de que o risco é controlado, previsível e facilmente gerível pelo jogador. Fala-se em “entretenimento”, “lazer”, “experiência”, “jogo responsável” e “autocontrolo”, como se o resultado dependesse apenas da capacidade individual de cada pessoa. Este enquadramento transfere subtilmente a responsabilidade: se o jogador perde o controlo, o problema é dele — não do ambiente altamente otimizado e tecnologicamente sofisticado no qual está inserido.
A linguagem cria uma ilusão de equilíbrio: a sensação de que jogar é sempre seguro, desde que cada um “saiba moderar-se”. A realidade, porém, é outra. O jogo, especialmente quando digital, é desenhado para prolongar a sessão, estimular o retorno e reforçar comportamentos repetitivos. O risco não é um detalhe periférico: é um elemento estrutural, sempre presente, mesmo quando as palavras tentam suavizá-lo.
Os eufemismos que escondem a dimensão da dependência
Outro aspeto da narrativa da indústria é a tendência para retirar severidade ao impacto social do jogo problemático. Em vez de dependência, fala-se em “padrões de jogo desajustado”; em vez de sobre-endividamento, fala-se em “gestão financeira inadequada”; em vez de exposição prolongada, fala-se em “maior envolvimento na experiência”.
Esta operação linguística não é inocente.
Serve para diluir responsabilidades, despolitizar o problema e afastar a discussão sobre falhas estruturais, desde a publicidade agressiva até sistemas de retenção comportamental que operam em silêncio.
Ao suavizar os termos, suaviza-se também a perceção pública do dano.
E quando o dano é suavizado, deixa de gerar urgência política.
As distrações estratégicas: quando se fala de “combater o ilegal” para evitar outros debates
Sempre que surge pressão pública, mediática ou parlamentar para limitar publicidade, reforçar proteção ao jogador ou exigir mecanismos de correção obrigatória, a indústria recorre a uma narrativa já conhecida: a de que qualquer restrição ao mercado legal abrirá espaço ao mercado ilegal. É um argumento eficaz, porque apela ao medo coletivo da perda de controlo do Estado. Mas é, quase sempre, uma distração.
A mensagem não se foca na proteção do jogador, foca-se na defesa da oferta. A discussão não se centra nos danos, centra-se na quota de mercado. E enquanto o debate público se concentra no “perigo do jogo ilegal”, deixa de se concentrar nas vulnerabilidades do jogo legal: publicidade intensiva, algoritmos de retenção, incentivos comportamentais, ausência de limites obrigatórios ou falhas na fiscalização.
A narrativa do “combate ao ilegal” funciona, assim, como nevoeiro político.
Desvia atenções para longe do que realmente importa.
O mito da oferta ampliada como solução para todos os problemas
Outro elemento recorrente consiste em afirmar que “mais oferta legal reduz a procura de oferta ilegal”. Não há evidência sólida que suporte esta conclusão, e alguns dos países com maior amplitude de oferta legal continuam a enfrentar mercados ilegais significativos. Ainda assim, esta narrativa persiste porque serve um propósito: legitimar expansões comerciais e publicitárias sob o pretexto da proteção do consumidor.
Este mito permite substituir uma discussão pública legítima, sobre limites, riscos e responsabilidades, por um argumento aparentemente pragmático. Mas quando o discurso serve a estratégia e não a evidência, o debate torna-se distorcido.
A medicalização como narrativa desresponsabilizadora
Outro eufemismo cada vez mais presente é a tendência de enquadrar o jogo problemático exclusivamente como uma condição de saúde individual. Quando se fala apenas de “tratamento”, “patologia”, “apoio clínico” e “sintomas”, o foco desloca-se do ambiente que produz vulnerabilidade para a pessoa que dela sofre. O problema deixa de ser sistémico e passa a ser individual e, com isso, a responsabilidade deixa de recair no operador e no Estado para recair no jogador.
É uma narrativa conveniente.
Mas não é uma narrativa justa.
Quando a narrativa substitui a realidade, a política perde-se
Nenhuma indústria se autorregula através da narrativa.
E nenhum país que confunde discurso com realidade consegue proteger os seus cidadãos.
Quando os mitos, eufemismos e distrações passam a pautar a conversa pública, deixamos de discutir aquilo que precisa de ser discutido: o poder da indústria, a vulnerabilidade do jogador, a necessidade de regulação independente, o impacto social silencioso e as falhas nos mecanismos de proteção.
A maturidade de uma sociedade mede-se pela sua capacidade de desmascarar discursos convenientes e encarar factos incómodos.
E isso só se consegue quando há coragem para olhar para além da camada linguística que adormece consciências.
A narrativa de “defender o Estado”: quando as empresas falam como guardiãs do erário público
Nos últimos anos ganhou força uma estratégia discursiva particularmente eficaz: a de apresentar a expansão da oferta de jogo e a flexibilização de regras como uma espécie de missão patriótica a favor do interesse público. É comum ouvir representantes da indústria argumentar, em entrevistas e conferências com grande cobertura mediática, que limitar publicidade, impor restrições responsáveis ou reforçar a fiscalização “pode pôr em causa receitas fundamentais para o Estado”, insinuando que a sua atividade é, acima de tudo, uma proteção do tesouro nacional.
É uma narrativa sedutora, porque apela ao medo da perda de receita pública e à ideia de que o jogo é uma espécie de serviço financeiro imprescindível ao Estado. Mas é também uma narrativa profundamente enviesada. As empresas defendem o seu modelo de negócio, o que é legítimo; o que já não é legítimo é insinuar que defender o negócio é o mesmo que defender o erário público.
A linguagem usada nestes momentos tende a omitir dois elementos cruciais: primeiro, que a maioria das receitas geradas pelo setor não são “ofertas ao Estado”, mas obrigações fiscais normais num ambiente económico regulado; segundo, que o custo social do jogo problemático, muitas vezes invisível e suportado pelos serviços públicos de saúde, segurança social e famílias, raramente é mencionado nestas intervenções.
Quando os representantes da indústria se apresentam como guardiães da receita pública, fazem-no apoiados em omissões estratégicas e numa leitura incompleta da realidade. A narrativa cria a ilusão de que qualquer tentativa de regular, limitar danos ou reforçar proteção ao jogador seria contrária ao “interesse nacional”. Na prática, esta retórica funciona como barreira discursiva que impede debates estruturais e coloca pressão desproporcional sobre decisores políticos.
É uma manobra eficaz, mas é também uma das distrações mais sofisticadas do discurso contemporâneo sobre o jogo.
Conclusão: desmontar a narrativa é o primeiro passo para reformar o setor
Os mitos tranquilizam, os eufemismos suavizam e as distrações desviam.
Mas a responsabilidade de quem analisa o setor, e de quem legisla, é devolver clareza ao debate. Sem essa clareza, nenhum modelo de proteção será eficaz. A indústria tem o direito de defender os seus interesses; o Estado tem o dever de proteger o interesse público; e a sociedade tem o direito de exigir transparência.
Enquanto esta narrativa permanecer intacta, continuará a ser um dos maiores obstáculos à discussão séria e informada sobre o jogo em Portugal.
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