Artigo 15 – A medicalização do jogo problemático
Quando o foco desvia do essencial
O jogo problemático é muitas vezes tratado como um problema de saúde individual, como se estivesse “dentro” da pessoa. Mas esta visão, embora comum, desvia o foco do essencial: os operadores e o Estado também têm responsabilidade no ambiente que criam.
A medicalização pode ajudar quem precisa, mas quando usada como explicação principal acaba por culpabilizar o jogador e deixar intocadas as condições que promovem comportamentos de risco — velocidade do jogo, ofertas permanentes, bónus agressivos, estímulos sensoriais e ausência de limites eficazes.
O jogo problemático não nasce no vazio: resulta da interação entre pessoas e sistemas cuidadosamente desenhados para prolongar o jogo. Por isso, a verdadeira solução exige regras, limites, transparência e um ambiente mais seguro, não apenas tratamentos individuais.
A responsabilidade tem de ser partilhada. E proteger o jogador significa olhar também para quem constrói o jogo.
A ideia de que o problema “está na pessoa”
Fala-se muito de jogo problemático como se fosse, antes de tudo, um problema de saúde individual. É frequente ouvir que a solução passa por apoio psicológico, tratamento especializado, ou até por abordagens clínicas que enquadram o comportamento do jogador como uma espécie de doença que “nasce” na pessoa. Mas esta forma de olhar para o problema, muito difundida e confortavelmente aceite, tem um efeito secundário perigoso: desloca a responsabilidade das entidades que realmente moldam o ambiente do jogo, e coloca-a quase inteiramente sobre os ombros do jogador.
Quando a medicalização desresponsabiliza operadores e Estado
Quando se medicaliza o jogo problemático, transmite-se a ideia de que o problema está exclusivamente dentro da pessoa. Como se fosse uma vulnerabilidade biológica, uma falha psicológica ou um descontrolo individual. Essa narrativa é conveniente, porque permite que os operadores continuem a promover jogos altamente persuasivos, rápidos e intensos, sem terem de assumir o papel que o próprio design do jogo desempenha no comportamento das pessoas. Permite também que o Estado, que autoriza e beneficia economicamente da atividade, mantenha uma posição confortável, centrada na prevenção “comunicada”, mas raramente questionando a estrutura que gera risco.
O ambiente do jogo não é neutro
A verdade é que o ambiente do jogo é determinante. A velocidade do jogo, a facilidade de apostar, a oferta permanente, as notificações, os bónus que aparecem na altura certa, as luzes, os sons e até a forma como as perdas são apresentadas como quase-vitórias, tudo isto influencia fortemente o comportamento. Nada disto é acidental. São estratégias validadas pela ciência comportamental para aumentar o tempo de jogo, a frequência de aposta e o envolvimento emocional. Assim, quando se medicaliza o problema, ignora-se que um comportamento que parece “individual” é muitas vezes induzido por um sistema criado para ser altamente envolvente.
A narrativa da culpa individual
Ao atribuir o problema à saúde individual, cria-se também um discurso subtil de culpa. Fica sugerido que, se a pessoa desenvolveu dificuldades, foi porque era vulnerável, frágil ou pouco capaz de se controlar. A mensagem subjacente é: “o problema está em si, não no jogo”. Isso não só desresponsabiliza quem opera e lucra, como também invisibiliza a necessidade de repensar regras, limites, fiscalização e práticas de promoção.
Quando o problema é enquadrado como “clínico”, o debate político encolhe
Esta visão medicalizada também tem outro efeito: retira força ao debate político e regulatório. Se o problema é individual, então a solução é terapêutica, não estrutural. O foco desloca-se para consultas, clínicas, planos de intervenção e serviços de apoio, todos muito importantes, mas insuficientes quando o ambiente que produz parte dos danos continua intacto. É como oferecer capacetes a pessoas que andam numa estrada cheia de buracos, mas nunca reparar a estrada.
O jogo problemático como fenómeno estrutural
O que seria mais justo e eficaz era reconhecer o jogo problemático como um fenómeno que emerge da interação entre a pessoa e o ambiente criado pelos operadores e aprovado pelo Estado. Não se trata de negar que algumas pessoas são mais vulneráveis, isso é verdade em qualquer comportamento de risco, mas sim de admitir que um ambiente de jogo mais seguro protege todos, vulneráveis ou não. Reduzir a disponibilidade, limitar a velocidade, restringir bónus e promoções, controlar algoritmos de retenção e impor limites automáticos não são questões de saúde individual; são decisões políticas e regulatórias.
A medicalização pode ser bem-intencionada, mas não basta
A medicalização pode até ser bem-intencionada, porque pretende ajudar quem está a sofrer. Mas, se não for acompanhada por um escrutínio real do sistema que produz grande parte do risco, torna-se uma ferramenta que perpetua o problema em vez de o resolver. Ao falar de jogo problemático apenas como um diagnóstico, fechamos os olhos aos incentivos, às estruturas e às práticas que tornam o jogo mais perigoso do que precisaria de ser.
A responsabilidade tem de ser repartida
É por isso que a verdadeira responsabilidade não pode cair apenas sobre o jogador que perdeu o controlo. A responsabilidade tem de ser repartida: pelos operadores, que definem as regras do jogo; pelo Estado, que regula e beneficia economicamente; e pela sociedade, que deve exigir transparência, limites eficazes e campanhas que não culpem a pessoa, mas sim consciencializem sobre o ambiente em que ela joga.
O verdadeiro problema não está só no indivíduo
No fundo, medicalizar o jogo problemático é reduzir um fenómeno complexo a uma explicação simples, e errada. O problema não está apenas na pessoa. Está, muitas vezes, no sistema que a rodeia. E enquanto o discurso focar apenas o indivíduo, continuaremos a tratar sintomas em vez de corrigir causas.
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