Artigo 29 - Estudos de Prevalência no Jogo
Por que são essenciais, como têm evoluído e o que Portugal precisa de aprender com os países mais consistentes
NÍVEL 2 - ANÁLISE ESTRUTURAL DO MERCADO
👉Análise crítica do funcionamento real do mercado.
Série 8 - Falhas Sistémicas e Assimetria
Artigo 12. 🔗 O Lado Invisível do Jogo
Artigo 25. 🔗 Branqueamento de Capitais
Artigo 26. 🔗 Ausência de mecanismos de correção obrigatória
Artigo 27. 🔗 Desequilíbrio de poder jogador–operador
Artigo 28. 🔗 Fracasso dos mecanismos de autocontrolo
Artigo 29. 📌 Estudos de prevalência
Artigo 30. 🔗 A ilusão da autorregulação
Introdução
Sem estudos de prevalência regulares, um país fica às cegas. Este artigo explica porque Portugal precisa de dados consistentes para compreender a evolução do jogo, identificar riscos existentes, avaliar políticas públicas e acompanhar as melhores práticas internacionais. Sem evidência, não há regulação — há improvisação.
Sem dados fiáveis, a política é guiada pela narrativa, não pela realidade
Os estudos de prevalência em comportamentos de jogo são uma das ferramentas mais importantes de qualquer país que pretenda regular o setor de forma responsável. Sem dados sólidos, atualizados e comparáveis, o debate público é capturado pelas narrativas dominantes — e estas, como sabemos, raramente são neutras. A ausência de informação cria um espaço político onde a indústria fala mais alto do que a evidência, e onde decisões cruciais são tomadas com base em perceções, pressões ou interesses circunstanciais, em vez de factos comprovados.
Portugal tem produzido alguns estudos relevantes ao longo dos anos, mas fá-lo de forma irregular, descontínua e com metodologias muitas vezes difíceis de comparar entre si. Esta irregularidade impede que o país conheça a verdadeira evolução dos comportamentos de risco, a eficácia das medidas de proteção, o impacto real da publicidade e as tendências que deveriam orientar a política pública no jogo online e presencial.
Enquanto isso, países com reguladores mais maduros perceberam cedo que sem dados robustos, não há regulação, há intuição. E intuição nunca é um substituto aceitável para a política pública.
O que realmente mede um estudo de prevalência e porque isso importa
Ao contrário do que se pensa, estes estudos não servem apenas para identificar o número de jogadores em risco ou com comportamentos problemáticos. A sua relevância vai muito além disso: permitem compreender os fatores que levam ao risco, traçar a evolução dos padrões de jogo por idade, género e contexto social, avaliar o impacto das novas modalidades de aposta e perceber como a mudança tecnológica está a alterar o comportamento dos utilizadores.
São, também, uma forma de testar a eficácia das medidas preventivas, de identificar falhas sistémicas e de antecipar surtos de risco associados a novas práticas, como apostas de micro-evento, jogos altamente gamificados ou campanhas agressivas dirigidas aos jovens.
Onde não há dados, o risco cresce silenciosamente; onde há dados, há capacidade de intervenção.
Os países que tratam os estudos como uma ferramenta estratégica e não como um gesto pontual
O Reino Unido mantém uma das tradições mais consistentes na realização de estudos de prevalência, cruzando metodologias, ajustando perguntas, monitorizando segmentos específicos e atualizando a própria definição de “risco” consoante a evolução tecnológica. Não é coincidência que seja também a jurisdição em que o regulador obriga as empresas a corrigir falhas, a reformular práticas e, quando necessário, a emitir confissões públicas de erro.
Nos Países Baixos, a realização regular destes estudos foi determinante para a reforma recente do setor e levou ao encerramento de operadores que se revelaram incapazes de cumprir padrões de proteção. No Canadá, a província de Ontário tornou obrigatória a monitorização contínua, com recolha de dados sistemáticos que alimentam decisões estruturais e orientam a política de licenciamento.
O que estes países têm em comum é simples: compreenderam que a continuidade dos estudos é mais importante do que qualquer medida isolada. A prevenção é um processo, não um gesto.
Portugal: lacunas, inconsistência e a necessidade urgente de continuidade
Em Portugal, a irregularidade é o maior obstáculo.
A ausência de estudos consistentes impede que se perceba, com clareza, se a prevalência do jogo problemático está a aumentar, a diminuir ou a transformar-se em novas formas de comportamento vulnerável. Mais grave ainda: sem monitorização regular, o país não consegue avaliar o impacto das campanhas de publicidade, das alterações legislativas, nem compreender a evolução do jogo online, que cresce a um ritmo substancialmente superior ao presencial.
A falta de dados também afeta a perceção pública. Sem estudos comparáveis ao longo do tempo, cria-se um espaço onde a narrativa mais vocal se sobrepõe à evidência, seja a narrativa da indústria, que subestima riscos, seja a narrativa alarmista, que os exagera. Ambas são perigosas. A ausência de dados abre caminho ao ruído e fecha a porta à racionalidade.
O que Portugal precisa de fazer para deixar de ser um país “às cegas”
O país precisa de uma política clara: estudos de prevalência regulares, obrigatórios, financiados de forma independente e conduzidos por entidades académicas ou científicas com autonomia garantida. Sem isso, Portugal continuará a navegar num setor cada vez mais complexo sem instrumentos adequados para avaliar riscos, antecipar problemas ou avaliar o verdadeiro impacto das medidas existentes.
Há um ponto adicional que Portugal deveria incorporar: os estudos não devem ser meramente quantitativos; devem integrar análise qualitativa, contextual e cultural. Os jogadores portugueses têm padrões próprios, influências mediáticas específicas e relações distintas com o jogo, especialmente no online. Esses fatores só são compreendidos através de metodologias mais profundas.
Conclusão: Sem evidência, não há regulação — há improvisação
Os estudos de prevalência são a base de qualquer política séria de proteção no jogo.
Sem eles, Portugal não sabe quantos vulneráveis existem, como evolui o risco, que impacto têm as medidas de prevenção, que danos permanecem escondidos e que novas práticas estão a emergir. O país precisa de transformar a exceção em rotina, a irregularidade em continuidade e a perceção em evidência.
Só assim deixaremos de discutir o jogo com base em impressões — e passaremos a fazê-lo com base em factos.
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