Artigo 2 - Decisões no Jogo
Como manter o controlo num ambiente de alto risco
SÉRIE 1 — Fundamentos da Literacia no Jogo
(A base pedagógica do projeto)
👉Estabelece o léxico, os conceitos-base e a legitimidade educativa do projeto.
Artigo 1 - Literacia do Jogo: Por que é essencial falar sobre isso?
Artigo 2 - Decisões no Jogo: Como manter o controlo num ambiente de alto risco
Artigo 3 - Literacia Financeira no Jogo: Quando saber lidar com o dinheiro também é proteção
Introdução
O jogo de fortuna ou azar é uma forma de entretenimento amplamente aceite em muitas sociedades modernas. Mas por trás das luzes, e da promessa de ganhos rápidos, esconde-se um universo de riscos psicológicos e comportamentais que não podem ser ignorados. Manter o controlo enquanto se joga é um desafio real, tanto para quem joga como para os que regulam. Neste artigo, exploramos os fatores que influenciam as decisões no jogo e partilhamos estratégias essenciais para reforçar o controlo individual e coletivo.
Por que apostamos? A psicologia da decisão
A decisão de apostar não é apenas racional. Está muitas vezes ligada a emoções, impulsos, stress ou ao desejo de escapar à realidade.
Estudos em neurociência demonstram que o jogo ativa os centros de recompensa do cérebro, estimulando a libertação de dopamina, o que o torna altamente viciante.
Além disso, fatores sociais e culturais contribuem para uma imagem normalizada e atrativa do jogo, frequentemente promovida através da publicidade.
Como os jogos nos prendem: mecanismos invisíveis
Os jogos de azar são desenhados com base em princípios de reforço intermitente, criando ciclos de esperança e frustração. Mesmo após várias perdas, elementos como a ilusão de controlo e as quase-vitórias mantêm o jogador envolvido.
Estes mecanismos, amplamente estudados pela psicologia comportamental, são semelhantes aos usados em redes sociais e apps, e fazem parte do chamado design persuasivo.
O Behavioural Insights Team do Reino Unido confirma: a forma como o jogo é estruturado influencia diretamente o comportamento de quem joga.
Estratégias para manter o controlo
Manter o controlo é possível, mas exige informação, disciplina e apoio. Eis algumas práticas recomendadas:
Definir limites de tempo e de dinheiro antes de jogar;
Evitar jogar quando se sente triste, frustrado ou sozinho;
Fazer pausas regulares durante o jogo;
Acompanhar os ganhos e perdas reais;
Usar ferramentas de autoexclusão temporária ou permanente.
Reguladores como a Autorité Nationale des Jeux (França) e a Kansspelautoriteit (Países Baixos) exigem que os operadores licenciados disponibilizem opções de limitação e exclusão voluntária, acessíveis diretamente nas plataformas.
Mitos que comprometem as decisões
Frases como:
“Hoje estou com sorte.”
“Se insistir, recupero o que perdi.”
“Só jogo para me distrair.”
…são exemplos de crenças falsas, que distorcem a perceção do risco e aumentam a impulsividade. Desconstruir estes mitos é um dos pilares da literacia do jogo.
O impacto invisível de uma decisão impulsiva
Uma escolha impensada pode ter consequências graves: endividamento, rutura familiar, perda de emprego, isolamento social e deterioração da saúde mental.
O jogo compulsivo é reconhecido como uma forma de dependência comportamental. A Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu o transtorno de jogo na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) desde 2018.
O Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA) já apelou ao reconhecimento do jogo problemático como uma questão de saúde pública, propondo a sua integração nas redes de resposta e tratamento.
Prevenir é jogar melhor: recursos e apoio
A boa notícia? Há ajuda disponível, gratuita, anónima e especializada.
Em Portugal, o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) disponibiliza aconselhamento anónimo através da Linha 1414.
Outros recursos incluem:
Jogadores Anónimos – grupo de interajuda com reuniões regulares;
Plataforma Jogo Responsável – com conteúdos educativos, testes de autoavaliação e reencaminhamento para serviços de apoio;
Ferramentas como o BetBlocker – permitem bloquear o acesso a sites de jogo, sendo úteis para quem pretende recuperar gradualmente o controlo.
Conclusão
O controlo no jogo não é apenas uma questão pessoal.
É um compromisso partilhado entre jogadores, operadores, reguladores e sociedade.
Reforçar a literacia do jogo é reforçar a capacidade de decidir, com mais consciência, segurança e equilíbrio.
Criar ambientes de jogo seguros, informar com rigor e apoiar quem precisa são os pilares de um mercado verdadeiramente responsável.
E tudo começa com uma escolha: jogar com consciência.
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