Artigo 11 - Apostar no Desporto.
Entre o jogo limpo e os jogos de bastidores.
SÉRIE 5 — Jogo e Desporto: Integridade e Bastidores
👉Setor específico, mas crítico para opinião pública e regulação.
Artigo 8 - Apostas no Desporto: Riscos de integridade
Artigo 11 - Apostar no Desporto: Entre o jogo limpo e os jogos de bastidores
Introdução
O desporto é celebrado pela sua imprevisibilidade, pela emoção da incerteza do resultado até ao apito final. Isso torna-o apaixonante, e é também a incerteza que sustenta o mercado global de apostas desportivas, mobiliza adeptos e apostadores. No entanto, à medida que as apostas se expandem, cresce também outra incerteza: estará a verdade desportiva a ser comprometida por outros interesses?
A dependência dos clubes em relação às apostas
Nos últimos anos, muitos clubes, federações e organizações desportivas, sobretudo em competições financeiramente frágeis, passaram a depender fortemente de receitas oriundas de contratos com operadores de apostas.
Patrocínios em camisolas, naming de estádios e publicidade em transmissões desportivas transformaram a indústria de jogo e apostas numa das principais fontes de financiamento do desporto.
Embora esta relação assegure uma importante estabilidade financeira, pode também gerar um conflito de interesses estrutural: quanto maior a dependência dos clubes destas receitas, mais limitada se torna a sua capacidade de questionar práticas dos operadores ou de rejeitar contratos que ameacem a integridade do desporto.
Manipulação de competições: o risco sistémico
A manipulação de competições (match-fixing) é uma das maiores ameaças ao desporto moderno. Não afeta apenas o resultado final de uma partida, muitas vezes incide em “incidentes específicos” (cartões, penáltis, tempo de descontos), onde as apostas são volumosas, mas o escrutínio é menor.
Segundo a IBIA (International Betting Integrity Association), em 2023 foram reportados 268 casos de apostas suspeitas em 12 desportos diferentes, sendo o futebol o mais afetado.
Estes números refletem a vulnerabilidade crescente das competições, sobretudo em ligas secundárias, onde atletas e árbitros são mais suscetíveis a pressões financeiras.
Entre a paixão e o mercado
O risco não reside apenas na manipulação de competições. A própria comercialização do desporto através das apostas levanta dilemas:
Transmissões televisivas inundadas por publicidade de operadores;
Influencers e ex-jogadores a promover apostas em plataformas digitais;
Clubes que anunciam “aplicações de apostas oficiais” aos adeptos.
Esta fusão entre paixão desportiva e incentivo ao jogo cria uma zona cinzenta em que os adeptos, sobretudo jovens, são incentivados a apostar como forma de “participação ativa” no espetáculo.
O papel dos reguladores e das entidades desportivas
Garantir a integridade desportiva exige mais do que slogans. Reguladores fortes, como a Gambling Commission (Reino Unido) ou a Spillemyndigheden (Dinamarca), atuam em articulação com organizações desportivas para monitorizar padrões de apostas e aplicar sanções públicas e disciplinares desportivas.
Em contrapartida, mercados onde os reguladores são integrados em estruturas governamentais dependentes de receitas (caso de Portugal ou Espanha) enfrentam perceção pública de ineficácia e falta de independência na fiscalização.
Organismos desportivos de referência, a INTERPOL e o Conselho da Europa têm promovido a Convenção de Macolin, incentivando os Estados a adotar planos nacionais de integridade desportiva, com linhas de denúncia, plataformas nacionais, partilha de intelligence e cooperação transfronteiriça.
Medidas prioritárias para proteger a integridade do desporto
Para salvaguardar a essência do desporto, destacam-se as seguintes ações:
Garantir a separação entre financiamento desportivo e receitas provenientes de apostas, promovendo fontes de rendimento diversificadas e sustentáveis;
Estabelecer regras claras para parcerias comerciais entre clubes e operadores, com especial atenção às ligas que envolvem atletas jovens;
Reforçar programas contínuos de educação e formação em integridade para jogadores, árbitros, dirigentes e demais agentes desportivos;
Assegurar transparência nas sanções aplicadas a operadores e clubes envolvidos em práticas lesivas;
Restringir mercados de apostas de alto risco e maior vulnerabilidade à manipulação, como cartões, lesões ou competições de divisões inferiores.
Conclusão
O desporto vive da sua verdade. Se os bastidores forem capturados por interesses obscuros, a confiança do público e, com ela, o futuro do espetáculo, ficará irremediavelmente em risco. As apostas podem coexistir com a paixão genuína apenas quando existem regras claras, fiscalização independente e uma defesa intransigente da integridade desportiva.
Sem estas garantias, a linha entre o jogo limpo e as sombras da manipulação continuará a esbater-se, e perderemos todos, dentro e fora de campo.
O desporto só sobrevive à paixão quando a integridade não é negociável.
#Desporto #ApostasDesportivas #VerdadeDesportiva #ReceitasDesportivas #ManipulaçaoDeCompetiçoes #MatchFixing #Reguladores #EntidadesDesportivas #JogoResponsavel
Literacia em Jogo e Apostas é gratuito. Se gosta do nosso blog pode recomendar e partilhar os conteúdos com os seus leitores e amigos.




