Caderno n.º 1 — A Estoril Sol na Encruzilhada
Capítulo II
Um mercado que deixou de ser o mesmo
Durante décadas, os casinos portugueses operaram num mercado relativamente estável, marcado pela escassez da oferta e pela forte centralidade da exploração territorial. Esse equilíbrio foi-se alterando progressivamente com a expansão dos jogos sociais, a abertura do Casino de Lisboa, a regulamentação do jogo online e a transformação dos hábitos de consumo.
Neste segundo capítulo de A Estoril Sol na Encruzilhada, a análise desloca-se da empresa para o mercado. A questão central já não é apenas perceber o que aconteceu à Estoril Sol, mas compreender como se transformaram as condições económicas e concorrenciais em que os casinos de base territorial desenvolvem hoje a sua atividade.
Quando o mercado muda, o modelo económico consegue permanecer igual?
Durante grande parte da segunda metade do século XX, compreender o negócio dos casinos em Portugal era relativamente simples. O jogo de fortuna ou azar encontrava-se concentrado num número limitado de estabelecimentos, explorados em zonas geograficamente delimitadas e enquadrados por concessões públicas. A entrada no mercado estava condicionada, a oferta era territorialmente organizada e a concorrência direta permanecia limitada.
Nesse contexto, os casinos ocupavam uma posição singular. Não eram apenas locais onde se jogava. Integravam restauração, espetáculos, eventos e outras formas de entretenimento, beneficiando simultaneamente de uma circunstância económica decisiva: para quem pretendia participar legalmente em determinados jogos de fortuna ou azar, as alternativas eram reduzidas.
Durante décadas, este modelo revelou capacidade para gerar receitas significativas, assegurar contrapartidas para o Estado e sustentar estruturas empresariais de grande dimensão. Os próprios edifícios, alguns deles concebidos numa escala que hoje pode parecer difícil de reproduzir, refletiam uma determinada conceção do mercado: concentração da oferta, elevada capacidade de atração presencial e expectativa de continuidade de uma procura que dispunha de poucas alternativas comparáveis.
O Casino Estoril constitui talvez o exemplo mais emblemático dessa época.
A sua dimensão, localização, história e projeção internacional fizeram dele muito mais do que um espaço de jogo. Durante largos períodos, representou uma referência turística e social e ocupou uma posição particularmente relevante no mercado português dos casinos. A escala da operação fazia sentido dentro do ecossistema económico em que tinha sido construída.
O problema é que os mercados raramente mudam no momento em que percebemos que mudaram.
Transformam-se por acumulação. Um novo produto surge aqui, um comportamento altera-se ali, uma tecnologia modifica hábitos anteriormente consolidados, uma nova forma de concorrência conquista espaço. Durante algum tempo, cada alteração pode parecer insuficiente para pôr em causa o modelo existente. Quando finalmente observamos o conjunto, descobrimos que o mercado que julgávamos conhecer já não existe nas mesmas condições.
Foi, em grande medida, isso que aconteceu ao jogo em Portugal.
Da escassez de oferta à abundância
A primeira transformação não ocorreu com o jogo online. Começou muito antes.
Ao longo do tempo, a oferta de jogos acessível à população portuguesa tornou-se progressivamente mais ampla, frequente e diversificada. Os jogos sociais do Estado alargaram a presença do jogo no quotidiano, novos produtos foram introduzidos e alguns deles adquiriram uma capilaridade que nenhum casino poderia alguma vez reproduzir.
Esta alteração merece atenção porque modificou uma das condições fundamentais em que assentava o modelo tradicional dos casinos: a relativa escassez da oferta.
O jogador deixou progressivamente de precisar de se deslocar a um casino para encontrar uma oportunidade de jogar. Passou a encontrar produtos de jogo em milhares de pontos de venda distribuídos pelo território, integrados em rotinas quotidianas e associados a modalidades de participação muito diferentes da experiência tradicional de um casino.
A introdução e posterior expansão das lotarias instantâneas constitui um exemplo particularmente expressivo desta transformação. Não porque uma raspadinha seja economicamente equivalente a uma mesa de banca francesa, a uma máquina de jogo ou a uma sessão num casino — evidentemente não é —, mas porque ambas disputam algo que antecede a escolha do produto: a disponibilidade do consumidor para gastar dinheiro em jogo.
Esta distinção é importante.
Os diferentes segmentos do mercado não concorrem necessariamente pelos mesmos jogadores, com a mesma intensidade ou através das mesmas motivações. Mas podem disputar parcelas do mesmo rendimento disponível e, sobretudo, podem alterar a frequência, a conveniência e a normalização social do ato de jogar.
Pouco a pouco, o casino deixou de ocupar a posição quase exclusiva que historicamente tivera em determinadas formas de jogo.
E esta seria apenas a primeira transformação.
Quando o casino se aproximou do jogador
A abertura do Casino de Lisboa, em 2006, introduziu uma alteração particularmente relevante para a zona de jogo do Estoril.
Até então, o Casino Estoril beneficiava não apenas do prestígio associado à sua história e dimensão, mas também da sua posição geográfica relativamente à principal área metropolitana do país. A criação de um grande casino dentro da cidade de Lisboa alterou inevitavelmente essa relação.
Para uma parte significativa do público, a deslocação necessária para aceder a um casino tornou-se menor. O jogo presencial aproximou-se do centro urbano, dos locais de trabalho, das redes de transportes e de uma população residente e flutuante muito numerosa.
Não é necessário concluir que o crescimento de um estabelecimento corresponde mecanicamente à perda do outro. Os mercados são mais complexos do que uma simples transferência de clientes. O Casino de Lisboa também poderia captar novos públicos, aumentar a frequência de visita e alargar globalmente o mercado.
Mas uma consequência parece difícil de ignorar: O Estoril deixou de ser a referência presencial praticamente inevitável para uma grande parte da procura proveniente da área de Lisboa.
Para um estabelecimento de grande dimensão, essa mudança tem particular importância.
Os custos associados à manutenção de um complexo como o Casino Estoril não diminuem automaticamente quando a procura se fragmenta. Edifícios, pessoal, equipamentos, segurança, programação, restauração e múltiplas infraestruturas continuam a exigir uma base económica capaz de os sustentar.
É aqui que começa a surgir uma questão que acompanhará os capítulos seguintes: o que acontece quando uma estrutura concebida para um mercado de elevada concentração passa a operar num mercado progressivamente fragmentado?
A resposta tornou-se ainda mais complexa alguns anos depois.
A concorrência deixou de precisar de um edifício
A regulação do jogo online em Portugal introduziu uma mudança de natureza diferente de todas as anteriores.
Até então, mesmo perante uma oferta crescente, o espaço físico continuava a desempenhar um papel central. O jogador tinha de se deslocar a um casino, dirigir-se a um ponto de venda ou realizar alguma ação fora de casa para participar em grande parte das modalidades disponíveis.
O digital eliminou essa distância.
Um telemóvel passou a permitir aquilo que anteriormente exigia deslocação, instalações, horários e uma decisão relativamente deliberada de procurar o jogo. O acesso tornou-se permanente, individual e potencialmente disponível em qualquer lugar.
Com esta transformação, a concorrência deixou de se medir apenas pela proximidade entre estabelecimentos ou pela dimensão da oferta disponível numa determinada zona geográfica. Passou também a medir-se pela facilidade de acesso.
Para os casinos de base territorial, isto representa uma mudança estrutural.
Um estabelecimento físico suporta custos que uma operação digital não suporta da mesma forma. Necessita de edifícios, manutenção, equipas presenciais, segurança física, equipamentos, restauração e, frequentemente, uma programação de entretenimento que ultrapassa a própria atividade de jogo. O operador online enfrenta outros custos — tecnologia, marketing, sistemas de pagamento, cibersegurança, compliance, desenvolvimento de produto —, mas a sua estrutura económica e a sua capacidade de alcançar jogadores são profundamente diferentes.
Mais importante ainda: o consumidor também mudou.
A possibilidade de jogar a partir de casa ou de um dispositivo móvel alterou a relação entre tempo, deslocação e conveniência. A visita ao casino passou a competir com uma experiência que pode começar em segundos.
A partir desse momento, o mercado deixou definitivamente de poder ser analisado apenas através da geografia das concessões.
A nova concorrência é pela atenção
Existe, porém, uma transformação ainda mais ampla.
Os casinos não concorrem apenas com outros casinos, nem sequer apenas com outras formas de jogo.
Concorrem pelo tempo das pessoas.
Concorrem pelo rendimento que estas destinam ao lazer.
Concorrem pela atenção.
Esta mudança ultrapassa largamente o setor do jogo. Plataformas digitais, streaming, videojogos, redes sociais, restauração, viagens, espetáculos e inúmeras outras formas de entretenimento disputam diariamente as mesmas horas disponíveis e parcelas do mesmo orçamento familiar.
Neste novo contexto, a deslocação a um grande casino já não pode ser considerada apenas uma decisão de jogo. É também uma escolha de lazer entre muitas outras possibilidades.
É precisamente por isso que a dimensão de um casino pode deixar de constituir, por si só, uma vantagem competitiva.
Durante muito tempo, dimensão significava variedade, capacidade de atração, notoriedade e economias de escala. Num mercado diferente, essa mesma dimensão pode significar custos fixos elevados e necessidade permanente de gerar fluxos de visitantes suficientemente grandes para justificar a estrutura existente.
Não significa que os grandes casinos estejam condenados. Significa algo bastante diferente: a escala deixou de garantir o modelo.
E é provavelmente aqui que se encontra uma das questões mais importantes para compreender o futuro do Casino Estoril.
O mercado mudou; a fiscalidade acompanhou-o?
A transformação concorrencial introduz ainda outra questão, particularmente sensível no caso português.
Durante décadas, os casinos desenvolveram a sua atividade num mercado protegido por concessões e sujeito, em contrapartida, a um regime fiscal e financeiro exigente. A lógica histórica era compreensível: o Estado concedia direitos exclusivos de exploração em determinadas zonas e recebia contrapartidas associadas a essa exclusividade.
Mas a economia que sustentava esse equilíbrio foi-se alterando.
A oferta de jogo aumentou. Os jogos sociais ganharam dimensão e capilaridade. O jogo online foi regulado. As apostas desportivas adquiriram uma presença que seria difícil imaginar algumas décadas antes. O consumidor passou a dispor de alternativas permanentes.
Os casinos mantiveram, entretanto, uma parte significativa das obrigações associadas ao modelo concessionado.
É neste ponto que a discussão fiscal deixa de poder ser reduzida à pergunta habitual sobre se os casinos pagam muito ou pouco imposto. A questão economicamente relevante é outra: o regime de contrapartidas criado para um mercado em que a exclusividade territorial possuía um determinado valor económico continua adequado quando esse valor se transforma num ecossistema muito mais diversificado e concorrencial?
Responder exige mais do que comparar taxas nominais. Exige analisar as diferentes bases de incidência, as obrigações concessionais, os investimentos exigidos, os custos específicos da exploração territorial e as condições competitivas enfrentadas pelos diferentes segmentos do mercado.
Não anteciparemos essa análise aqui.
Mas ignorar a questão seria igualmente inadequado.
Uma estrutura fiscal concebida para capturar parte da renda gerada por uma posição privilegiada pode produzir efeitos muito diferentes quando aplicada a operadores que passaram a competir num ecossistema muito mais fragmentado.
Esta questão será particularmente importante quando analisarmos a sustentabilidade económica dos casinos territoriais e, em concreto, a situação da Estoril Sol.
Uma mudança silenciosa
Vista isoladamente, nenhuma destas transformações explica aquilo que hoje observamos.
A expansão dos jogos sociais não explica, por si só, as dificuldades de um casino. O aparecimento do Casino de Lisboa também não. O jogo online também não. A transformação dos hábitos de lazer, a evolução tecnológica ou a fiscalidade, consideradas individualmente, também seriam explicações insuficientes.
É a acumulação que importa.
Ao longo de duas décadas, uma empresa como a Estoril Sol viu modificar-se simultaneamente o universo de produtos disponíveis aos consumidores, a localização da concorrência presencial, os canais através dos quais se pode jogar, os hábitos de entretenimento e a própria natureza da competição pelo tempo e pelo rendimento disponível.
Enquanto isso, uma parte importante da estrutura física, laboral e concessionada permaneceu necessariamente ligada a um modelo territorial.
É neste desfasamento que começa a verdadeira questão.
Não se trata de perguntar se os casinos pertencem ao passado. Continuam a existir exemplos internacionais de casinos altamente competitivos, rentáveis e capazes de desempenhar um papel relevante em destinos turísticos e de entretenimento.
A pergunta é outra.
Que tipo de casino consegue prosperar no mercado que surgiu?
Esta questão torna-se particularmente importante quando olhamos novamente para o Casino Estoril.
Porque a história, o prestígio e a dimensão que durante décadas constituíram alguns dos seus maiores ativos permanecem. Mas o contexto económico que lhes dava determinado valor transformou-se profundamente.
E isso conduz-nos inevitavelmente ao passo seguinte.
Se o mercado deixou de ser o mesmo, importa agora perceber se o modelo de exploração também mudou suficientemente.
É aí que a dimensão do Casino Estoril, a transferência de uma parte da procura presencial para Lisboa, a importância dos jogadores de maior valor, os custos associados a uma estrutura de grande escala e a necessidade de encontrar novas funções para o espaço deixam de ser questões isoladas.
Passam a fazer parte da mesma pergunta.
Síntese
O mercado português do jogo transformou-se progressivamente de um sistema caracterizado pela escassez relativa da oferta e pela forte posição dos casinos territoriais num ecossistema diversificado, digital e intensamente concorrencial.
A expansão dos jogos sociais, a abertura do Casino de Lisboa, a regulamentação do jogo online, a mudança dos hábitos de consumo e a competição crescente pela atenção e pelo rendimento disponível alteraram profundamente as condições em que os casinos desenvolvem a sua atividade.
Esta transformação não determina, por si só, a inviabilidade do modelo territorial. Mas obriga a perguntar se estruturas concebidas para um mercado diferente conseguiram adaptar-se suficientemente ao mercado atual.
Uma questão para reflexão
Quando o mercado que justificou um determinado modelo económico desaparece, até que ponto é possível preservar esse modelo sem o transformar?
Continuação
O Casino Estoril nasceu e cresceu numa realidade em que dimensão, concentração da oferta e capacidade de atração presencial constituíam vantagens competitivas particularmente relevantes.
Hoje, algumas dessas mesmas características podem representar desafios económicos.
No Capítulo III — O problema da escala: quando a dimensão deixa de ser uma vantagem, regressaremos ao caso concreto da Estoril Sol para analisar uma questão central deste Caderno: poderá um dos maiores casinos da Europa continuar a ser explorado segundo uma lógica económica concebida para um mercado que já não existe nas mesmas condições?
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