Caderno n.º 1 — A Estoril Sol na Encruzilhada
Capítulo IX
Depois do jogo: que futuro para o casino territorial?
Se já não é necessário entrar num casino para jogar, qual é a função do casino territorial? Os novos resultados da Estoril Sol mostram uma recuperação do jogo presencial, mas também confirmam a crescente importância do digital. O futuro poderá depender menos de escolher entre físico e online e mais de redefinir aquilo que só o espaço físico consegue oferecer.
Durante décadas, a função económica do casino territorial pareceu relativamente estável. O estabelecimento concentrava a oferta de determinados jogos, beneficiava de um enquadramento concessionado que limitava territorialmente a concorrência e combinava a exploração do jogo com outras atividades de entretenimento, restauração e animação. O casino era, neste sentido, simultaneamente um local onde se jogava e um destino ao qual era necessário deslocar-se para aceder a uma parte relevante dessa oferta.
A expansão do jogo online alterou progressivamente este equilíbrio. O consumidor deixou de necessitar do espaço físico para aceder ao jogo e passou a poder fazê-lo através de um computador ou de um telemóvel, em permanência e praticamente a partir de qualquer lugar. Esta transformação não eliminou o casino territorial, nem permite concluir que o jogo presencial tenha perdido a sua relevância. Retirou-lhe, contudo, uma característica que durante muito tempo esteve na base do seu modelo económico: a associação entre o acesso ao jogo e a deslocação ao estabelecimento.
É neste contexto que a situação da Estoril Sol deve ser observada. Ao longo dos capítulos anteriores vimos que as dificuldades do grupo não podem ser reduzidas a uma única causa. A evolução da procura, a dimensão e os custos das infraestruturas, o crescimento do digital, o enquadramento concessionado, a fiscalidade e a própria estrutura financeira interagem entre si. A reestruturação analisada no capítulo anterior surge precisamente como uma tentativa de responder a esse conjunto de pressões. Mas deixa em aberto uma questão que ultrapassa a redução de custos: que função poderá desempenhar o casino territorial num mercado em que o jogo já não depende da existência desse espaço?
Um mercado que não regressou ao ponto de partida
Os resultados do primeiro semestre de 2026, entretanto divulgados, ajudam a enquadrar esta questão. Não mostram o desaparecimento da procura presencial. Pelo contrário, as receitas de jogo dos casinos do Estoril e de Lisboa registaram alguma recuperação face ao período homólogo. No conjunto dos dois estabelecimentos, atingiram cerca de 59,8 milhões de euros, mais 4% do que no primeiro semestre de 2025. A recuperação deve, contudo, ser colocada em perspetiva: as receitas permaneciam cerca de 17% abaixo das registadas no período comparável de 2019, antes da pandemia.
A evolução dos dois casinos também não é idêntica. O Casino Estoril registou aproximadamente 22,3 milhões de euros de receita de jogo, mais 1% do que no período homólogo, mas ainda cerca de 25% abaixo de 2019. O Casino de Lisboa alcançou aproximadamente 37,5 milhões de euros, crescendo 7% num ano e permanecendo cerca de 11% abaixo do nível de 2019. Esta diferença reforça uma das ideias que temos vindo a desenvolver: falar genericamente da situação dos casinos físicos pode ocultar realidades bastante distintas dentro da própria concessão.
A dimensão do Casino Estoril, a configuração dos seus espaços, a localização, a história e a estrutura de custos não são comparáveis em todos os aspetos com as do Casino de Lisboa. Aquilo que durante décadas constituiu uma vantagem — uma grande infraestrutura capaz de concentrar jogo, espetáculo, restauração e grandes fluxos de visitantes — pode tornar-se mais difícil de sustentar quando a procura associada diretamente ao jogo diminui. Mas essa constatação não significa necessariamente que a infraestrutura tenha perdido valor. Obriga antes a perguntar de que forma esse valor poderá ser produzido no futuro.
O crescimento digital altera o equilíbrio
A recuperação parcial da atividade territorial ocorre, além disso, num mercado em que o digital continua a ganhar peso. No primeiro semestre de 2026, as receitas online da Estoril Sol atingiram aproximadamente 32,4 milhões de euros, representando um crescimento de 28% face ao período homólogo e situando-se cerca de 78% acima das registadas no período comparável de 2019.
A diferença torna-se particularmente relevante quando observamos os resultados dos diferentes segmentos. O Casino Estoril continuou a apresentar um resultado negativo, próximo dos sete milhões de euros, enquanto o Casino de Lisboa registou um resultado ligeiramente positivo, de cerca de 535 mil euros. A atividade online, por sua vez, apresentou um resultado positivo próximo dos 7,6 milhões de euros.
Estes números não demonstram que o digital esteja simplesmente a substituir o casino territorial. As duas atividades têm estruturas de custos, obrigações, características e formas de consumo diferentes, pelo que uma comparação direta tem limites evidentes. Mostram, contudo, que o equilíbrio interno da atividade da Estoril Sol se modificou profundamente. O digital deixou de poder ser tratado como uma extensão marginal de um negócio essencialmente territorial e passou a constituir uma componente relevante da estrutura económica do grupo.
A questão estratégica passa, assim, a ser mais complexa do que decidir entre investir no físico ou no digital. Importa perceber que função poderá desempenhar cada canal e de que forma poderão coexistir sem se limitarem a reproduzir, em suportes diferentes, a mesma proposta de valor.
O valor do espaço para além do jogo
A conveniência constitui uma das vantagens estruturais do canal digital. Permite jogar sem deslocação, com disponibilidade permanente e através de dispositivos que fazem parte do quotidiano dos consumidores. Tentar reproduzir essa vantagem no espaço territorial dificilmente poderá constituir uma resposta suficiente. A questão poderá estar, pelo contrário, na valorização das características que o digital não consegue reproduzir da mesma forma: a experiência presencial, a sociabilidade, o espetáculo, a restauração, os eventos e a própria relação do estabelecimento com o território onde se encontra inserido.
Os resultados do primeiro semestre de 2026 oferecem, a este respeito, um indicador interessante. As receitas provenientes da restauração, animação e outras atividades operacionais atingiram aproximadamente 8,7 milhões de euros, crescendo cerca de 27% face ao período homólogo. O dado deve ser interpretado com prudência. Não permite concluir que estas atividades possam substituir economicamente o jogo, nem demonstra que a diversificação constitua, por si só, uma solução para os problemas financeiros do Casino Estoril. Mostra, porém, que existe uma componente económica para além do jogo e que a sua evolução pode adquirir maior importância num modelo territorial em transformação.
Esta perspetiva permite também reconsiderar a dimensão do Casino Estoril, analisada anteriormente como um dos fatores que agravam a sua estrutura de custos. Uma grande infraestrutura representa um encargo particularmente significativo quando a utilização diminui, mas a mesma dimensão pode constituir um ativo se permitir acolher atividades, públicos e experiências que estabelecimentos mais pequenos dificilmente conseguem oferecer. O problema não está, portanto, apenas na dimensão física do casino, mas na relação entre essa dimensão, a utilização efetiva dos espaços e a capacidade de lhes atribuir novas funções económicas.
A questão colocada no capítulo anterior ganha, assim, maior alcance. Se o jogo já não necessita do casino para chegar ao consumidor, o casino poderá ter de oferecer outras razões para que o consumidor escolha deslocar-se até ele. Não se trata de retirar o jogo do centro da identidade do estabelecimento, mas de perceber se essa identidade pode continuar a depender quase exclusivamente da atividade que justificou historicamente a sua existência.
Uma função que também pertence à história do Estoril
No caso do Casino Estoril, pensar o futuro para além do jogo não representa necessariamente uma rutura com o seu passado. Ao longo da sua história, o estabelecimento combinou a exploração do jogo com espetáculos, restauração, eventos, cultura e sociabilidade. A sua relevância resultou também da capacidade de funcionar como destino, e não apenas como lugar onde estavam disponíveis determinados jogos.
Naturalmente, recuperar esta dimensão não significa tentar reconstruir o casino de outras décadas. Os hábitos de consumo mudaram, a oferta de entretenimento multiplicou-se, o turismo transformou-se e os próprios públicos que frequentam os casinos são diferentes. A questão consiste em saber se alguns dos ativos históricos do Casino Estoril — a dimensão, a localização, o reconhecimento da marca, os espaços de espetáculo e a capacidade de acolhimento — podem ser reinterpretados de acordo com uma procura contemporânea.
Esta mudança de perspetiva tem consequências importantes. Durante muito tempo, o objetivo económico podia ser formulado sobretudo em termos da capacidade de atrair jogadores ao estabelecimento. Num mercado em que o acesso ao jogo deixou de depender da deslocação, a questão passa também por saber como atrair visitantes ao espaço e que papel deverá o jogo desempenhar dentro de uma experiência mais ampla.
Não sabemos, com os dados disponíveis, até onde pode ir esta transformação nem qual poderá ser o peso económico das atividades complementares. Seria precipitado apresentar a diversificação como solução demonstrada. Mas é igualmente difícil imaginar uma reflexão sobre o futuro do Casino Estoril que ignore a possibilidade de utilizar de outra forma uma infraestrutura cuja dimensão constitui simultaneamente um custo e um dos seus principais ativos.
Dois casinos não têm necessariamente de desempenhar a mesma função
A evolução recente do Casino de Lisboa reforça outra questão que merece ser considerada. Se os dois estabelecimentos apresentam comportamentos económicos diferentes, não existe razão para pressupor que uma estratégia futura tenha de lhes atribuir exatamente a mesma função.
O Casino de Lisboa beneficia de um contexto urbano distinto, de importantes fluxos turísticos e de uma implantação física diferente. O Casino Estoril possui outra escala, outra história e outra relação com o território. Estas diferenças podem significar que a adaptação da concessão não passe simplesmente pela aplicação das mesmas soluções aos dois estabelecimentos, mas por uma definição mais clara daquilo que cada um pode oferecer dentro da atividade do grupo.
Esta diferenciação pode revelar-se especialmente relevante quando introduzimos a componente digital. A existência de casinos territoriais e de uma operação online dentro da mesma estrutura empresarial cria possibilidades de articulação, mas não significa automaticamente que exista uma estratégia verdadeiramente integrada. Possuir vários canais é diferente de compreender qual é a função de cada um e de que forma podem relacionar-se.
Por isso, a ideia de omnicanalidade deve ser utilizada com alguma prudência. A integração entre físico e digital pode assumir diferentes formas e não deve ser confundida simplesmente com a presença simultânea nos dois mercados. O desafio estratégico consiste em perceber se essa presença pode ser organizada de forma coerente, preservando aquilo que distingue a experiência territorial e aquilo que torna o digital conveniente para o consumidor.
Integrar canais também cria novas responsabilidades
Uma maior articulação entre o presencial e o digital pode ser facilitada pela tecnologia, pelos sistemas de relacionamento com clientes e pela utilização de dados. Estas ferramentas permitem conhecer melhor determinados padrões de utilização, estabelecer continuidade entre diferentes pontos de contacto e adaptar serviços. Mas a tecnologia não responde, por si só, à questão essencial sobre o valor futuro do espaço físico.
Além disso, quanto maior for a integração, maior poderá ser também a responsabilidade associada ao conhecimento acumulado sobre o comportamento do jogador. A combinação de informação proveniente de diferentes canais levanta questões relacionadas com privacidade, proteção de dados, monitorização de comportamentos e identificação de situações de risco. Num setor regulado, a integração não pode ser avaliada exclusivamente pela capacidade de aumentar receitas, fidelizar clientes ou tornar a experiência comercial mais eficiente.
Esta dimensão é particularmente importante no contexto do projeto que temos vindo a desenvolver. A transformação tecnológica pode criar novas oportunidades económicas, mas também altera a capacidade dos operadores para conhecer e influenciar o comportamento dos jogadores. Uma estratégia que aproxime o territorial e o digital terá, por isso, de ser acompanhada por uma reflexão equivalente sobre as responsabilidades que resultam dessa aproximação.
O futuro do casino territorial não pode ser pensado apenas como uma questão de modernização empresarial. É também uma questão de governação, proteção e definição dos limites dentro dos quais essa transformação deve ocorrer.
Quando a transformação da empresa encontra os limites do modelo
A capacidade de adaptação da Estoril Sol não depende exclusivamente das decisões da administração. Como vimos nos capítulos anteriores, os casinos territoriais portugueses operam dentro de um modelo concessionado que foi construído num contexto económico muito diferente do atual. A exclusividade territorial tinha então um valor particularmente relevante porque o acesso a determinados jogos dependia, em grande medida, da presença física dentro das zonas de jogo.
O crescimento do online reduziu a importância económica dessa fronteira territorial sem eliminar as obrigações financeiras, fiscais e operacionais associadas às concessões físicas. Isto não significa que essas obrigações devam simplesmente desaparecer ou que o modelo concessionado tenha deixado de ter fundamento. Significa que a relação entre direitos concedidos e obrigações exigidas deve ser analisada à luz de um mercado em que a exclusividade territorial já não representa a mesma vantagem económica.
Esta questão torna-se ainda mais relevante se se esperar que os casinos continuem a desempenhar funções que ultrapassam a exploração direta do jogo, contribuindo para a animação, o turismo, o emprego, a restauração ou a oferta cultural. Se o espaço territorial tiver de se transformar para preservar a sua relevância, importa perceber se o enquadramento concessionado favorece essa adaptação ou se continua excessivamente orientado para uma realidade em que a atividade de jogo constituía, de forma muito mais evidente, o centro económico do estabelecimento.
A reestruturação da Estoril Sol e a eventual redefinição dos seus casinos encontram aqui uma fronteira que a empresa não controla sozinha. Reduzir custos, reorganizar espaços, investir em novos equipamentos ou desenvolver novas atividades são decisões empresariais. Mas o resultado dessas decisões continuará condicionado pela fiscalidade, pelas obrigações concessionadas e pelas regras que enquadram a exploração. A capacidade de adaptação da empresa e a capacidade de adaptação do modelo deixam, neste ponto, de poder ser analisadas separadamente.
Um futuro que dificilmente será apenas físico ou digital
A evolução observada até agora sugere que a transformação dos casinos territoriais não deverá ser interpretada como uma simples disputa entre dois canais em que um necessariamente substitui o outro. O primeiro semestre de 2026 é elucidativo precisamente porque apresenta sinais que não apontam todos na mesma direção: o jogo territorial recuperou parcialmente, o Casino de Lisboa apresentou uma evolução mais favorável do que o Casino Estoril, o online continuou a crescer de forma muito expressiva e as receitas provenientes de atividades complementares também aumentaram.
O que estes dados parecem mostrar é um mercado em que as diferentes componentes da atividade evoluem a ritmos distintos e podem vir a desempenhar funções diferentes. O digital possui vantagens evidentes de conveniência e disponibilidade. O casino territorial mantém características próprias associadas à presença física, à experiência, à sociabilidade e ao entretenimento. A sustentabilidade futura poderá depender menos da tentativa de fazer com que um canal reproduza o outro e mais da capacidade de definir aquilo que cada um pode oferecer.
No caso da Estoril Sol, esta transformação assume particular importância porque o grupo reúne numa mesma estrutura dois casinos físicos com comportamentos diferentes e uma atividade online que adquiriu um peso económico crescente. A questão já não consiste apenas em saber se o Casino Estoril conseguirá recuperar os níveis de atividade do passado. Consiste em perceber se o estabelecimento poderá encontrar uma função económica ajustada a um mercado no qual a razão original para a deslocação ao casino deixou de ser exclusiva.
É neste sentido que a discussão sobre o futuro do casino territorial ultrapassa a própria Estoril Sol. O caso permite observar uma transformação que poderá colocar-se, com intensidades e respostas diferentes, a outros operadores. Se a presença física continuar a ter valor, esse valor terá provavelmente de ser demonstrado num mercado em que o consumidor dispõe de alternativas que não exigem deslocação e em que a própria relação entre jogo, entretenimento e tecnologia está a mudar.
Síntese
Ao longo deste Caderno temos vindo a acompanhar a Estoril Sol a partir de diferentes dimensões: a transformação do mercado, a escala das infraestruturas, o crescimento digital, o modelo concessionado, a fiscalidade, os resultados financeiros, a estrutura acionista e, mais recentemente, o processo de reestruturação. O Capítulo IX permite reunir estas dimensões em torno de uma questão mais ampla: que lugar poderá ocupar o casino territorial num mercado em que o acesso ao jogo já não depende da sua existência?
Os resultados do primeiro semestre de 2026 não apontam para o desaparecimento do casino físico. Mostram alguma recuperação da atividade territorial, mas também diferenças significativas entre Estoril e Lisboa e um crescimento muito mais acentuado do online. Ao mesmo tempo, o aumento das receitas provenientes da restauração, animação e outras atividades sugere que a dimensão não-jogo merece ser acompanhada, sem que existam ainda elementos suficientes para concluir que poderá compensar estruturalmente a fragilidade observada na atividade do Casino Estoril.
A resposta poderá, portanto, não estar numa escolha entre físico e digital. Poderá estar numa redefinição das funções de cada um, reconhecendo que aquilo que tornou o casino territorial economicamente central durante grande parte do século XX já não existe nas mesmas condições.
Para o Casino Estoril, essa transformação encerra um paradoxo. A dimensão que hoje contribui para tornar a operação mais pesada pode também oferecer possibilidades que estabelecimentos menores não possuem. Transformar esse potencial em valor dependerá, porém, da procura, da estratégia empresarial, da capacidade de investimento e do enquadramento económico e regulatório em que a empresa continuará a operar.
O futuro do casino territorial não está, por isso, necessariamente depois do jogo. Pode estar na redefinição do lugar que o jogo ocupa dentro de um espaço que terá de justificar, novamente, por que razão vale a pena visitá-lo.
Uma questão para reflexão
Se já não precisamos de ir ao casino para jogar, o que terá um casino de oferecer para continuarmos a querer ir até lá?
Continuação
A análise da Estoril Sol mostra como um operador histórico procura responder à transformação de um mercado em que o territorial e o digital passaram a coexistir. Mas esta não é necessariamente a única trajetória possível. A entrada de grupos internacionais, a aproximação entre operações físicas e digitais e o desenvolvimento de estratégias que os próprios operadores apresentam como omnicanal começam a introduzir outras formas de organização no mercado.
Observar essas diferenças é importante porque permite passar da análise de uma empresa para uma questão mais ampla: estará a transformação dos casinos portugueses a produzir novos modelos de exploração, ou estamos ainda perante adaptações de um modelo essencialmente construído para outra época?
É a partir desta questão que continuaremos a análise.
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